Sim, a vida é curta. Curta demais, principalmente se confrontada com a realidade da eternidade.
Temos basicamente duas opções para acreditar: ou Deus existe ou não existe. Da primeira, temos a opção de alinha-lo aos fenômenos naturais, remover d´Ele qualquer traço de intenção ou propósito, tornando-O para nossa inteligibilidade e sinestesia, uma mera força motora lógica e criativa que gera o universo. Nesse caso, é o mesmo que escolher a segunda opção, para conclusões práticas. Sejamos práticos, pois é isso que interessa para muitos.
Caso Ele exista, e seja uma entidade fenomenológica natural, em que o humano é apenas uma faísca ao acaso fluindo num processo despojado de teleologia, o resultado da história particular de cada um encontrará conclusão no nada absoluto, a morte. Simplesmente deixar de existir. Resultado da função: zero, NaN, undefined, false. Suas partículas se espalharão pelo universo, voltando para a natureza. Mas você com certeza encontrará o zero nessa transição, e não vai estar por aí pensando "que legal, minha mão é uma flor e o meu pé virou uma núvem", num ciclo suave de perda de identidade até a diluição absoluta.
Caso Ele não exista, a consequência é a mesma do pressuposto anterior.
Mas caso Ele exista e tenha um propósito com a sua existência humana, a qual você costuma atribuir valor zero para o universo, o resultado dessa função é o índice 1 (o absoluto, o concreto, o válido, o true, Integer, se você preferir).
Dessas duas escolhas básicas, ou você escolhe a possibilidade 1 ou 0. Pensando friamente, é muito estranho que as pessoas que pensam ter um raciocínio absolutamente lógico escolham o resultado certo igual a zero, e não a probabilidade de 1. Mesmo porque, depois que você morrer, se não houver nada mesmo, você também não perdeu nada, mesmo que tenha passado a vida toda como um fanático enlouquecido. Nem mesmo sua dignidade, e de nada teria servido sua auto-estima ou seu orgulho científico, ou sua curtição, nem todo o prazer que desfrutou: o resultado é ZERO.
A outra opção parece bem mais interessante: a probabilidade mesmo remota de 1 é muito mais válida matematicamente que zero, e só um imbecil escolheria a anterior. Um exemplo pra quem ainda não conseguiu entender: você está num prédio, ele vai desabar, você tem duas saídas: em uma você pode sobreviver, na outra você tem certeza absoluta que vai morrer. Qual você escolhe?
Agora considere o seguinte: caso Deus exista e não espere nada de você, que Ele esteja a despeito de sua presença, mais ocupado com as órbitas das galáxias e com o ciclo do tempo, os fluxos de wormholes e gravidades através da matéria escura do universo, a conclusão após a sua morte é a mesma que se supor que Ele não existe: chegamos ao mesmo resultado zero absoluto. Afinal de contas, se Ele não está nem aí pra você nessa porcaria de mundo de fardos e sofrimentos, porque lhe daria o paraíso ou o inferno sem um desenvolvimento de causa e consequência?
Sendo assim, a escolha mais inteligente e com maior probabilidade de utilidade e aproveitamento do resultado é a de que Ele existe, e tem alguma coisa com você. E agora, seguindo novamente a natureza da causa-consequência e equilíbrio das forças atuantes, com pressuposto de que para toda causa há uma consequência, e de que para toda situação há necessariamente uma causa anterior, e se considerando válido que a manifestação química "felicidade" ou "desgraça" são eventos reais e que estão encadeados em processos contínuos, a proposta reencarnacionista parece ser absolutamente lógica e razoável. Por outros motivos, e após anos sendo espírita, abandonei essa pressuposta "verdade lógica". Mas o ponto importante aqui em desenvolvimento é o fato de que a história do ser humano, em sua individualidade, leva a um resultado, e é inteligente que se espere que ele será considerado após a morte.
Estou sobrepondo escolhas: a primeira, de que Deus existe, por ser a mais inteligente. A segunda, de que a conduta é um fenômeno válido nos "cálculos naturais da realidade" e portanto participa do devir.
Claro: posso escolher passar a vida a remover aquela montanha com minhas próprias unhas. Então como uma escolha pode alterar a realidade material sem ser válida? O elemento zero em qualquer função pode levar a um resultado igual a zero. Portanto, a conduta e a moral são elementos presentes na composição do real, e tem consequências sobre a matéria. Parece óbvio, mas muita gente faz força pra acreditar no contrário.
Neste campo, o problema parece residir na confusão que há entre a busca pela felicidade e a busca pelo prazer, seu e dos outros. E principalmente, na linha de pensamento reducionista e maquiavélica que justifica as escolhas; Sobre a felicidade com ou sem religião, vale ler Platão e outros filósofos muito elucidativos.
Então, a última coisa que eu defendo é a ausência de felicidade: sim, seja feliz, muito feliz! Mas não confunda isto com egoísmo, visão obtusa, vício, infelicidade alheia, isolamento e tantos fatores que tornam essa felicidade um problema no futuro.
E não cabe aqui discutir o caos e a imprevisibilidade do devir: sua intenção é que vai te garantir o resultado, independente do rumo que as coisas tomaram. Acredite, é diferente.
